
Milton compôs:
"Foi nos bailes da vida ou num bar em troca de pão, que muita gente boa pôs o pé na profissão. De tocar um instrumento e de cantar, não importando se quem pagou quis ouvir, foi assim: cantar era buscar o caminho que vai dar no sol. Tenho comigo as lembranças do que eu era. Para cantar nada era longe, tudo tão bom. Pé a estrada de terra na boléia de um caminhão, era assim: com a roupa encharcada e a alma repleta de chão. Todo artista tem de ir aonde o povo está. Se foi assim, assim será. Cantando me desfaço e não me canso de viver, nem de cantar."
Há dias tenho pensado, em plena sintonia com a natureza (contente por isso), nos variados significados que a elasticidade da pele pode criar. Las odiadas rugas se originam da contração muscular repetida ao longo dos anos. Essas passam a aparecer na fase adulta pelo corpo humano. Aos 25, 40 ou 50: não somos nós quem podemos decidir. Cabe só à genética, à intensidade de atividades que o vivente tem/teve (e os problemas - como doenças, ou soluções que isso acarreta) e um pouco de sorte... A busca pela jovialidade, nos dias atuais, tem as dissipado. Cirurgias de lá, cremes de cá; ciência e estética juntas na busca pelo propósito de eliminá-las.
Porém, minimizando as rugas, há perda da nossa identidade. Hipocrisia conquistando seu espaço. Mulheres de 50 competindo com as de 20: nos campos amoroso, estudantil e de trabalho.
Rugas significam vida árdua (de trabalho, na pele cor-de-cuia da mendiga da rua ao lado; de leveza, na pele branca da dondoca empresária que te despreza), experiência. Rugas "pés-de-galinha" deixam subentendido que os olhos daquela senhora presenciaram inúmeras cenas; que as mãos marcadas do senhor que toma cerveja no bar sofreram abusos no trabalho: ergueram muitos tijolos para pagar sua bebida.
Femininas ou masculinas: essas marcas corporais fazem parte da nossa história; não devem ser dissipadas ou escondidas com maquiagens. São, ao contrário do que a mídia nos repassa, motivo de orgulho.
Alguns cidadãos com idadade superior a 50 anos provavelmente nunca serão considerados mártires - por não terem pregado revoluções, mas sua experiência e a vivência que isso acarreta são notáveis. Não os ignorem, vos peço.
Pendo para o lado geriátrico, não minto, mas sou crente em uma sociedade baseada no respeito pelos idosos e aposentados. Afinal de contas, a nossa hora chegará... em breve.
E à quem está pensando em encarar uma jornada de cirurgias pelo corpo e rosto, a fim de parecer mais jovem, que pense na possibilidade de enviar esse dinheirão todo que os médicos e clínicas pedem por seus serviços - sem necessidade, para algum asilo. Certamente o aproveitamente do uso financeiro será maior: com a alimentação das senhoras e senhores que precisam e sua estadia final em Gaia.
Admirem olheiras: deixam subentedido trabalho, cansaço. Estudantes que passaram a noite em cima de livros preparando-se para uma prova querem reconhecimento; trabalhadores de três turnos seguidos, com 30 min. para janta e almoço, também.
Esses seres são os dignos de nossa admiração e respeito.
No mais, estimo que esse texto balance vossas estruturas.
Passem bem,
Clarice S.









