sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010


"A nossa civilização é em grande parte responsável pelas nossas desgraças. Seríamos muito mais felizes se a abandonássemos e retornássemos às condições primitivas."
Sigmund Freud


Ah, na falta do que fazer resolvi postar.
Acho que bebi demais, mas, sei lá.
Estou cansada de regras. Mesmo...
às vezes sinto falta delas e certas vezes (como agora) as repudio com toda força de minh'alma. Mesmo quando penso que estou sendo livre acabo por seguir regras; mesmo que sejam as minhas próprias, são regras!
São tão necessárias assim a ponto de interferirem em nosso livre-arbítrio?
Já essa porcaria de sermos livres é uma regra.
Outrora li que "Liberdade é um estado de espírito" e seja lá quem for que ditou essas palavras à criatura que me escreveu, estava certo.
Bem... mesmo sendo 05:25 estou sem sono. Minha cabeça dói, o que é um provável sinal de que não terei ressaca essa manhã.
Gostaria que mais pessoas lessem esse blog e percebessem como mesmo nós, 'críticos da sociedade', somos alienados e de certo burros por ser tão convictos de nossas opiniões.
Nesse exato momento, em que o álcool afeta meus instintos, percebo que somente seremos libertados quando o amor nos deixar cegos e possamos, enfim, nos tornar selvagens uma vez mais.

Ao contrário do que diz o título do blog... O inferno não são 'os outros' e sim 'nós'.
Ah, que enxaqueca.

Samantha.

Eternamente marginal.



À saber:

A fama de poeta maldito que Paulo Leminski carregou durante toda a vida não era apenas um rótulo. Extremamente culto, ele conjugou como ninguém a erudição, que lhe era característica, à loucura da Contracultura dos anos 1970; unindo o coloquialismo rasteiro das ruas às idéias mais vanguardistas. Espécie de reencarnação de Rimbaud, o "Polaco" foi poeta, jornalista, publicitário, lutador de judô, compositor e seminarista. Um escritor totalmente afinado com o seu tempo e que, segundo Haroldo de Campos, "foi o poeta mais criativo de sua geração".
Mas, passados 20 anos da morte do poeta, o que se escuta a respeito de sua obra é um silêncio ensurdecedor que o falastrão Leminski certamente contestaria. No ano da efeméride do poeta, seus livros estão fora das estantes, sua obra musical totalmente dispersa e o Perhappiness, festival criado em sua homenagem, que acontecia em Curitiba nos meses de setembro e outubro, foi definitivamente sepultado. O último livro de poesia de Leminski que ganhou as prateleiras foi "O ex-estranho", uma coletânea de poemas compilada por Alice Ruiz, viúva do escritor, que foi reeditada no já longínquo ano de 1996.
José Castello, autor do romance "Fantasma", livro que tem Paulo Leminski e a cidade de Curitiba como personages, sugere que o esquecimento do poeta pelo mercado editorial pode ser indício de que, de alguma forma, a figura mítica do escritor se sobrepôs à sua produção literária. "Nesse início de século 21, os escritores se transformaram em figuras pop. A figura de Leminski se insere nessa série de autores pop de nossa época. Morreu jovem, era ousado e sedutor, teve uma vida aventurosa, foi um homem corajoso e rebelde; enfim, unia todos os atributos para ser transformado em um herói. Ainda que, para alguns, seja um anti-herói, esse aspecto do heroísmo nunca se separa de sua imagem. Seria muito bom se tudo isso se refletisse não só na venda de livros, mas, sobretudo, na qualidade das leituras de sua obra. Infelizmente, isso não parece ser verdade", diz o crítico carioca.
Autor extremamente produtivo, apesar da incansável militância etílica e boêmia, Leminski escreveu prosa, poesia, ensaio, crítica literária e foi tradutor de autores como James Joyce, John Fante, Valt Whitman e Samuel Beckett. Esses livros estão espalhados por uma dezena de editoras, algumas que não existem mais. Contraditório na essência, o grán Paulo estreou na literatura com um livro de prosa, ou um "romance-ideia", como gostava de se referir ao seu "Catatau".
Lançado em 1975, o livro é uma viagem linguística que apresenta o filósofo René Descartes (pai da filosofia moderna) nas areias do nordeste brasileiro à espera de um certo Krzystof Artschewski, comandante polonês e chefe da expedição holandesa no Brasil. Em sua prosa-poética, escrita em um único parágrafo e em letras minúsculas, o romance seria homenagem à prosa de Joyce, de Guimarães Rosa e de Haroldo de Campos.
Considerada sua principal obra por muitos críticos, "Catatau" é mais um dos livros da bibliografia deste grande poeta marginal que está fora de catálogo. Reeditada em 2005, quando completou 30 anos, o livro rapidamente desapareceu das estantes para não ser mais visto.
Tal livro surgiu de um conto escrito por ele ainda nos anos 1960, mesma época dos primeiros poemas. Poesia em prosa, eis a coerência do romance. "O Waly Salomão que dizia que Leminski era uma 'convergência de contradições', por suas origens negras e polacas, por ser um grande atleta (faixa preta de judô) e um grande boêmio; um bandido que sabia latim", diz Toninho Vaz, referindo-se ao título da biografia do poeta.
Morto em 1989, aos 44 anos, vítima de cirrose hepática, Leminski influenciou não só os seus contemporâneos, mas também gerações posterior. Além disso, suas letras de música foram gravadas por artistas como Caetano Veloso, Itamar Assumpção, Morais Moreira, Ney Matogrosso e Arnaldo Antunes.
Depois de 20 anos de sua morte, a figura de "Polaco" ainda é bastante presente. Porém, sua obra tem sobrevivido de maneira inconstante. A crítica considera 20 anos o tempo ideal para o assentamento de valores de uma obra literária. Um fato que beneficia o julgamento do trabalho do poeta do Pilarzinho, agora já bastante aceito pelos críticos mais céticos. A novidade nesta paisagem é o desaparecimento do folclore das drogas e das biritas, da boemia desregrada ou, em muitos casos, do suicídio consentido, ainda que involuntário. As novas gerações "seletivas" aceitam Paulo Leminski, claramente, como um intelectual, um pensador.

Nos anos 1970, porém, em plena ditadura militar, os jovens estudantes (que poderiam ver nas obras de Leminski a leitura obrigatória colegial) não possuíam liberdade para conhecer a fundo um autor que criticava o regime; que era a imagem de cidadão não quisto pelo governo. Pode-se perceber, portanto, que a maioria das pessoas que tiveram acesso ao conhecimento na juventude e que têm idade acima de 35 anos, não conhecem Paulo Leminski. Com nossos avós de 70 és la misma cosa.
Resta a "classe trabalhadora recente" (20-35) de nosso país fazer esse papel, além dos atuais estudantes e aspirantes a cultura marginal.
Caso contrário, sua complexa leitura será designada às crianças que hoje nascem, que crescerão e, na melhor das hipóteses, se interessarão por literatura. Estimo que estas vejam nesse hombre seu ídolo; quem "saboreava no cigarro a libertação de todos os seus pensamentos" e, sobretudo, a cada escrita plantava uma semente de esperança na mente dos jovens leitores e libertários: as utopias fazem o mundo resistir; revoluções são necessárias.

Texto embasado em um artigo publicado pela revista da Livraria Cultura, em 2009.


Clarice S.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

“O homem é uma corda esticada entre o animal e o super-homem – uma corda sobre um abismo”. Friendich W. Nietzsche, em “Assim falou Zaratustra”.



Nietzsche foi um pensador alemão que viveu no século XIX e criticava, além do Clero, a sociedade consumista que surgiria com o desencadeamento das revoluções industriais. Muito estudado hoje, ele antecipou mais de cem anos o que aconteceria. Em sua frase acima, o animal é o animal, o super-homem é o homem no mesmo patamar que Deus (o ideal) e o abismo são as crises.
O homem, apesar de possuir “polegar opositor e o tele-encéfalo altamente desenvolvido”, como tratado no filme curta-metragem desenvolvido por Jorge Furtado em 1989, “A ilha das flores”; age instintivamente algumas vezes e outras, racionalmente. Sua alta racionalidade proporciona desigualdades. Instintivamente falando, todos os homens são iguais perante a natureza. Sendo da mesma espécie, orientais, europeus, negros, latino-americanos, enfim; o homem não escolheria “raça” para cruzamento. Assim como um cão boxer pode querer cruzar com um puddle. Racionalmente falando, o homem branco escolhe uma parceira branca para cruzamento, dando continuação à sua raça. Instintivos ou não, alguns homens dinamizaram esse esquema e hoje, não temos nenhuma “raça” completamente pura (como sugeriria Hitler, líder nazista que exterminou 6 milhões de judeus na 2ª Guerra Mundial).
Preconceitos surgem dessa dinâmica, caro Hitler. Nenhum acontecimento anterior, na paz ou na guerra, tinha refletido tanto o encolhimento do mundo.
No início do documentário, o título “A ilha das flores” aparece ao redor da figura do planeta Terra. Com essa simbologia, podemos compreender como os problemas que o filme aborda abrangem não somente Porto Alegre, aonde foi gravado, mas sim o mundo todo.
Por meio de uma analogia, esses problemas são retratados: o Sr. Suzuki, japonês e plantador de tomates, atuando na região de Porto Alegre-RS, despacha seu produto para os supermercados desta região. Dona Anete, brasileira e vendedora de perfumes; compra tomates e carne de porco no mercado com o lucro adquirido com a venda dos perfumes. Esses ingredientes são principais na refeição que Dona Anete prepara para sua família. Entre os tomates comprados, havia um julgado impróprio para o consumo humano. Esse produto foi jogado no lixo. O lixo recolhido, como acontece todos os dias em várias cidades do mundo, foi enviado para depósitos. Um destes é chamado “A ilha das flores”, localizado em Porto Alegre; onde parte do lixo orgânico é separado e utilizado como alimento para porcos de um dos criadores estabelecidos na região. O problema é que, depois da coleta seletiva, outros seres humanos passam a disputar as sobras do lixão da Ilha das flores.
Desde que o homem, na antiguidade, deixou de ser nômade e descobriu a agricultura, tornando-se sedentário; há uma noção de território. Florestas cederam espaço para a agricultura e à criação de rebanhos; e hoje, para a exploração e o transporte de petróleo, que contamina terras, rios e mares. Tudo o que é produzido em algum momento terá de ser descartado. O volume de lixo e entulho produzido pela sociedade moderna vem crescendo de forma impetuosa. Não há mais espaço para deposita-lo e o seu acúmulo contamina os solos, rios, mares e lençóis freáticos.
O lixo é uma invenção do consumismo. O consumismo existe há tempos, mas se acentuou depois das revoluções industriais (especialmente na 3ª, a que estamos vivendo), isso porque elas agilizaram o processo de fabricação, o que não era possível durante o período artesanal. Consumismo é o mal desta sociedade “capitalista podre” como o tomate jogado no lixo, mas que se diz moderna, antenada e democrática. O que se vê é justamente o contrário: qualquer cachorrinho de madame tem um tratamento melhor do que as crianças paridas sobre as marquises de favelas e que diariamente vasculham as latas de lixo nas esquinas. Qualquer porco da Ilha das flores tem prioridade na alimentação que as crianças e mulheres de lá. “O que coloca os seres humanos depois dos porcos na habilidade de escolha de alimentos, é o fato de não terem dinheiro, nem dono”, como é esclarecido no fim do documentário.
Na “realidade humana”, nada é feito sem dinheiro. Bem como a luta para a abolição da escravatura dos EUA, por exemplo. Foi uma luta igualitária conduzida por pessoas de bom coração. Mais que isso, meu caro. Foi realizada por nações cada vez mais ricas que já não dependiam da escravidão para uma parcela significativa de sua riqueza. Interligamos isso à... dinheiro. O mundo moderno é movido por esse; quem não o possui, está classificado na classe social pobre ou em uma camada social chamada “abaixo da miséria” (como vive 1/3 da população da Índia). Estão esquecidos. Castro Alves deixa subentendido em seu poema “Navio Negreiro” que é preferível morrer à ser submetido a essa situação.
Tudo o que a humanidade, especialmente tratando da classe média/alta, acha impróprio para a sua sobrevivência, vai para as “bordas”. As bordas de uma cidade são as periferias. As bordas dos alimentos são os lixões, as ruas, e quando muito, os aterros sanitários. A culpa é alheia. Da América à Europa Oriental a situação é precária e existente.
Porém, o outro lado da moeda é visível. Ninguém é totalmente anti-consumista; se assim fosse, seria contra sua própria existência. A humanidade precisa comprar alimentos no supermercado, remédios na farmácia, roupas para vestir, enfim. O problema está no consumir esses produtos ou serviços sem consciência; o que acontece muitas vezes por influência da mídia (propagandas em si). Alan Schlup Sant’anna, em seu livro “Equilíbrio em um mundo difícil”, define: “A diferença entre o consumo e o consumismo é que no consumo as pessoas adquirem somente aquilo que lhes é necessário para sobrevivência. Já no consumismo a pessoa gasta tudo aquilo que tem em produtos supérfluos, que muitas vezes não é o melhor para ela. Porém, sente-se encorajada em experimentar tais produtos devido às propagandas na TV e ao apelo dos produtos de marca.”
“A roda da economia”, como revela o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, “só gira quando todos participam dela”. Quanto à independência em termos sociais e econômicos, ninguém a possui completamente (nem um casal de hippies vivendo em uma granja e plantando somente para sua sobrevivência). Uma vez que, quando o ciclo dos produtos funciona (esses que passam em várias “mãos” até chegar ao consumidor), gera-se uma dependência de setor em setor. O Sr. Suzuki, por exemplo, precisa que a dona Anete compre seus tomates, e essa precisa que alguém compre seus perfumes. “Isso é importante porque atinge todos os setores da economia. Da construção civil ao setor têxtil; da indústria naval à indústria de aviação, automobilística, passando pelo setor de serviços. Todos estão crescendo. O povo está consumindo mais. Cada vez que o povo consome, ele gera mais necessidade das empresas produzirem mais, mais emprego, salário. É mais um consumidor na praça”, diz o otimista presidente brasileiro.
Estamos em estado de inércia e em meio a um comodismo. A desigualdade entre classes existe. Sabemos que, como dito acima, às vezes animais domésticos são mais bem tratados que moradores de rua. Isso acontece pela distribuição desigual de renda de um país. Pouco é feito. O ideal, nesse momento, seria o meio-termo. Não trato de um socialismo utópico, mas sim de um estado em que as pessoas pudessem viver com dignidade; com o mínimo necessário para a sobrevivência humana: alimentação, estudo (acesso ao conhecimento), moradia, saneamento básico e um hospital à disposição.

“Ilha das Flores será um falso documentário. Documentário porque todas as informações serão reais. E falso porque vai seguir a trajetória fictícia de um tomate, plantado, colhido, vendido a um supermercado, comprado por uma dona-de-casa, rejeitado na hora de fazer o molho, jogado no lixo, levado para a Ilha das Flores, esquecido pelos porcos e finalmente encontrado por uma criança com fome.”
Jorge Furtado, dias antes do lançamento de seu filme curta-metragem.


Clarice S.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Crack. O lado negro da diversão. De que lado você está?


Boa noite!
O tema de hoje é Crack. Não sou eu quem vou falar sobre, e sim irei transcrever algumas palavras que li em uma revista local.
Ps. A foto acima é a capa da revista - cujo nome não será citado.

OPINIÃO
- O crack está hoje em qualquer pequeno município, aumentando o índice de criminalidade entre as pessoas. Isso é uma catástrofe é uma verdadeira epidemia que se desenvolve rapidamente. Em sua opinião o que você acha que deve ser feito para combater esse mal? -

"Os (nossos) adolescentes acabam se envolvendo muito cedo com o mundo das DROGAS, por motivo de muitos jovens hoje terem uma liberdade que não se tinha há muito tempo atrás, muitos pais não davam essa liberdade de hoje a seus filhos.
O índice da criminalidade está crescendo cada vez mais, esse fato ocorre por vivermos em uma sociedade onde as drogas são aceitas com muita naturalidade pela sociedade. Ninguém se manifesta ou toma uma atitude para reverter essa situação, apenas cruzam-se os braços e deixam que o mundo seja tomado por esse "BANDO" de desocupados, que nada mais são que os causadores das mortes, dos assaltos, sequestros etc. Isso por consequência de se envolver com o mundo do Crack."

Pensei sinceramente em criticar os erros do Editor ao desenvolver a matéria da capa, porém, outra coisa chama mais a atenção: opinião pública. O texto entre aspas foi o comentário de uma mulher de 21 anos. Quantas vezes tive medo de cometer o mesmo erro, tratando de forma equivocada assuntos que não conheço, e o mesmo medo permeia agora; todavia, é algo que não pude deixar passar.
Substâncias alucinógenas, calmantes, entorpecentes e outros sempre existiram, o que mudou foi seu "modo de usar" e sua divulgação. Talvez os filhos de outrora fossem menos boêmios ou somente se disfarçavam melhor; mas é realmente uma palhaçada afirmar que a criminalidade cresce porque a sociedade aceita as drogas com naturalidade. Os criminosos não são somente os viciados e as leis que proibem ou restringem o uso de substâncias causadoras de dependência não estão aí só "pra bonito" (ou talvez sim, mas esse é assunto pra outro dia).
By the way, estou me manifestando contra a hipocrisia e negligência. "Nada mais são do que causadores das mortes". É realmente lamentável, MUITO lamentável que existam pessoas assim, e que há quem concorde, e que há quem o publique em uma revista de circulação regional que é, quiçá, um ícone formador de opinião.

Outra coisa que não passa despercebido é o uso da religião e das crenças como meio de forçar as pessoas a escolher um lado ou, como meio de apelo.
Mas, lado de quê?

Comparado a essa matéria até meu conto no vestibular sobre "Túmulos com teto solar" é melhor. Bom final de semana,

Samantha.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O valor de uma ruga.



Milton compôs:
"Foi nos bailes da vida ou num bar em troca de pão, que muita gente boa pôs o pé na profissão. De tocar um instrumento e de cantar, não importando se quem pagou quis ouvir, foi assim: cantar era buscar o caminho que vai dar no sol. Tenho comigo as lembranças do que eu era. Para cantar nada era longe, tudo tão bom. Pé a estrada de terra na boléia de um caminhão, era assim: com a roupa encharcada e a alma repleta de chão. Todo artista tem de ir aonde o povo está. Se foi assim, assim será. Cantando me desfaço e não me canso de viver, nem de cantar."

Há dias tenho pensado, em plena sintonia com a natureza (contente por isso), nos variados significados que a elasticidade da pele pode criar. Las odiadas rugas se originam da contração muscular repetida ao longo dos anos. Essas passam a aparecer na fase adulta pelo corpo humano. Aos 25, 40 ou 50: não somos nós quem podemos decidir. Cabe só à genética, à intensidade de atividades que o vivente tem/teve (e os problemas - como doenças, ou soluções que isso acarreta) e um pouco de sorte... A busca pela jovialidade, nos dias atuais, tem as dissipado. Cirurgias de lá, cremes de cá; ciência e estética juntas na busca pelo propósito de eliminá-las.
Porém, minimizando as rugas, há perda da nossa identidade. Hipocrisia conquistando seu espaço. Mulheres de 50 competindo com as de 20: nos campos amoroso, estudantil e de trabalho.
Rugas significam vida árdua (de trabalho, na pele cor-de-cuia da mendiga da rua ao lado; de leveza, na pele branca da dondoca empresária que te despreza), experiência. Rugas "pés-de-galinha" deixam subentendido que os olhos daquela senhora presenciaram inúmeras cenas; que as mãos marcadas do senhor que toma cerveja no bar sofreram abusos no trabalho: ergueram muitos tijolos para pagar sua bebida.
Femininas ou masculinas: essas marcas corporais fazem parte da nossa história; não devem ser dissipadas ou escondidas com maquiagens. São, ao contrário do que a mídia nos repassa, motivo de orgulho.

Alguns cidadãos com idadade superior a 50 anos provavelmente nunca serão considerados mártires - por não terem pregado revoluções, mas sua experiência e a vivência que isso acarreta são notáveis. Não os ignorem, vos peço.

Pendo para o lado geriátrico, não minto, mas sou crente em uma sociedade baseada no respeito pelos idosos e aposentados. Afinal de contas, a nossa hora chegará... em breve.

E à quem está pensando em encarar uma jornada de cirurgias pelo corpo e rosto, a fim de parecer mais jovem, que pense na possibilidade de enviar esse dinheirão todo que os médicos e clínicas pedem por seus serviços - sem necessidade, para algum asilo. Certamente o aproveitamente do uso financeiro será maior: com a alimentação das senhoras e senhores que precisam e sua estadia final em Gaia.

Admirem olheiras: deixam subentedido trabalho, cansaço. Estudantes que passaram a noite em cima de livros preparando-se para uma prova querem reconhecimento; trabalhadores de três turnos seguidos, com 30 min. para janta e almoço, também.
Esses seres são os dignos de nossa admiração e respeito.

No mais, estimo que esse texto balance vossas estruturas.

Passem bem,
Clarice S.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Tell all the people that you see... Set them free!

Criatividade zero hoje. Mas apesar dos incômodos do último mês do ano me sinto feliz por ter descoberto uma nova cultura (Hippie). Na verdade ela existe há praticamente cinco décadas e possuiu milhares de adeptos em seu auge; meu interesse aumentou nesse final de ano e resolvi comentar.
Sabe-se lá porque, talvez já esteja de saco cheio dessa merda chamada Raça Humana.
Antes de 'enxer de lixo' meus semelhantes somente desejo que explodam junto com os fogos de artifício de ano novo. Agora penso que o mundo acabar em 2012 e recomeçar não é uma má ideia.
Oh céus. Bom final de ano, criaturas. Incluam em seus planos para 2010 independência. Que assim seja!

Samantha.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

"Reciprocidade ou morte!"



Saudações.

Hoje vos trago um texto digno de nossa leitura; de um grande teólogo, filósofo, escritor e defensor da prática de sustentabilidade. Leonardo Boff desistiu da carreira eclesiática há alguns anos e passou a dedicar-se a atividades realmente importantes, relacionadas ao meio-ambiente que não conservamos. É sobre isso que o texto abaixo aborda. O cara é tão bom, que prefere andar de ônibus a avião em suas longas viagens pelo Brasil afora; por tratar-se de um transporte coletivo, em que menor quantidade de CO2 é liberada à atmosfera.


"Desde que os seres humanos decidiram viver juntos, estabeleceram um contrato social não escrito pelo qual formularam normas, proibições e propósitos comuns que permitissem uma convivência minimamente pacífica.
Depois surgiram os pensadores que lhe deram um estatuto formal como Locke, Kant e Rousseau. Todos esses contratos históricos têm um defeito: supõem indivíduos nus e acósmicos, sem qualquer ligação com a natureza e a Terra. Os contratos sociais ignoram e silenciam totalmente o contrato natural. Mais ainda, a partir dos pais fundadores da modernidade, Descartes e Bancon, implantou-se a ilusão de que o ser humano está acima e fora da natureza com o propósito de domínio e posse da Terra. Este projeto continua a se realizar mediante a guerra de conquista seguida pela apropriação de todos os recursos e serviços naturais. Atrás sempre fica um rastro de devastação da natureza e de desumanização brutal. Antes se fazia guerra e apropriação de regiões ou povos. Hoje conquistaram-se todos os espaços e se conduz uma guerra total e sem tréguas contra a Terra, seus bens e serviços, explorando-os até a sua exaustão. Ela não tem mais descanso, refúgio ou espaço de recuo.
A agressão é global e a reação da Terra-Gaia [teoria de James Lovelock]está sendo também global. A resposta é o complexo de crises, reunidas no devastador aquecimento global. É a vingança de Gaia.
Não temos outra saída senão reintroduzir consciente e rapidamente o que havíamos deixado para trás: o contrato natural articulado com o contrato social. Trata-se de superar nosso arrogante antropocentrismo e colocar todas as coisas em seu lugar e nós junto delas como parte de um todo.
Que é contrato natural? É o reconhecimento do ser humano de que ele está inserido na natureza, de quem tudo recebe, que deve comportar-se como filho e filha da Mãe Terra, restituindo-lhe cuidado e proteção para que ela continue a fazer o que desde sempre faz: dar-nos vida e os meios da vida. O contrato natural, como todos os contratos, supõe a reciprocidade. A natureza nos dá tudo o que precisamos e nós, em contrapartida, a respeitamos e reconhecemos seu direito de existir e lhe preservamos a integridade e a vitalidade.
Ao contrato exclusivamente social, devemos agregar agora o contrato natural de reciprocidade e simbiose. Renunciamos a dominar e a possuir e nos irmanamos com todas as coisas. Não as usamos simplismente, mas ao usá-las quando precisamos, as contemplamos, admiramos sua beleza e organicidade e cuidamos delas. A natureza é o nosso hospedeiro generoso e nós seus hospedes agradecidos. Ao inés de uma trégua nesta guerra sem fim, estabelecemos uma paz perene com a natureza e a Terra.
A crise econômica de 1929 sequer punha em questão a natureza e a Terra. O pressuposto ilysório de que elas estão sempre aí, disponíveis e com recursos infinitos. Hoje a situação mudou. Já não podemos dar por descontada a terra com seus bens e serviços. Estes mostraram-se finitos e a capacidade de sua reposição já foi ultrapassada em 40%.
Quando esse fator é trazido ao debate na busca de soluções para a crise atual? Somos dominados por economistas, em sua grande maioria verdadeiros idiotas especializados - Fachidioten - que não veem senão números, mercados e moedas esquecendo que comem, bebem respiram e pisam em solos contaminados. Quer dizer, que só podem fazer o que fazem porque estão assentados na natureza que lhes possibilita fazer tudo o que fazem, especialmente, dar razões ao egoísmo e às barbaridades que a atual economia faz, prejudicando milhões de pessoas e que vai minando a base que a sustenta.
Ou restabelecemos a reciprocidade entre natureza e ser humano e rearticulamos o contrato social com o natural ou então aceitamos o rosico de sermos expulsos e eliminados por Gaia. Confio no aprendizado a partir do sofrimento e do uso do pouco bom senso que ainda nos resta."
Publicado em 14/12/09 no jornal "Diário do Iguaçu".


Depois dessa brilhante síntese de idéias (sou relutante quanto à nova regra de acentuação), nada mais tenho a dizer.

Passem bem.

Ass,
Clarice S.