
À saber:
A fama de poeta maldito que Paulo Leminski carregou durante toda a vida não era apenas um rótulo. Extremamente culto, ele conjugou como ninguém a erudição, que lhe era característica, à loucura da Contracultura dos anos 1970; unindo o coloquialismo rasteiro das ruas às idéias mais vanguardistas. Espécie de reencarnação de Rimbaud, o "Polaco" foi poeta, jornalista, publicitário, lutador de judô, compositor e seminarista. Um escritor totalmente afinado com o seu tempo e que, segundo Haroldo de Campos, "foi o poeta mais criativo de sua geração".
Mas, passados 20 anos da morte do poeta, o que se escuta a respeito de sua obra é um silêncio ensurdecedor que o falastrão Leminski certamente contestaria. No ano da efeméride do poeta, seus livros estão fora das estantes, sua obra musical totalmente dispersa e o Perhappiness, festival criado em sua homenagem, que acontecia em Curitiba nos meses de setembro e outubro, foi definitivamente sepultado. O último livro de poesia de Leminski que ganhou as prateleiras foi "O ex-estranho", uma coletânea de poemas compilada por Alice Ruiz, viúva do escritor, que foi reeditada no já longínquo ano de 1996.
José Castello, autor do romance "Fantasma", livro que tem Paulo Leminski e a cidade de Curitiba como personages, sugere que o esquecimento do poeta pelo mercado editorial pode ser indício de que, de alguma forma, a figura mítica do escritor se sobrepôs à sua produção literária. "Nesse início de século 21, os escritores se transformaram em figuras pop. A figura de Leminski se insere nessa série de autores pop de nossa época. Morreu jovem, era ousado e sedutor, teve uma vida aventurosa, foi um homem corajoso e rebelde; enfim, unia todos os atributos para ser transformado em um herói. Ainda que, para alguns, seja um anti-herói, esse aspecto do heroísmo nunca se separa de sua imagem. Seria muito bom se tudo isso se refletisse não só na venda de livros, mas, sobretudo, na qualidade das leituras de sua obra. Infelizmente, isso não parece ser verdade", diz o crítico carioca.
Autor extremamente produtivo, apesar da incansável militância etílica e boêmia, Leminski escreveu prosa, poesia, ensaio, crítica literária e foi tradutor de autores como James Joyce, John Fante, Valt Whitman e Samuel Beckett. Esses livros estão espalhados por uma dezena de editoras, algumas que não existem mais. Contraditório na essência, o grán Paulo estreou na literatura com um livro de prosa, ou um "romance-ideia", como gostava de se referir ao seu "Catatau".
Lançado em 1975, o livro é uma viagem linguística que apresenta o filósofo René Descartes (pai da filosofia moderna) nas areias do nordeste brasileiro à espera de um certo Krzystof Artschewski, comandante polonês e chefe da expedição holandesa no Brasil. Em sua prosa-poética, escrita em um único parágrafo e em letras minúsculas, o romance seria homenagem à prosa de Joyce, de Guimarães Rosa e de Haroldo de Campos.
Considerada sua principal obra por muitos críticos, "Catatau" é mais um dos livros da bibliografia deste grande poeta marginal que está fora de catálogo. Reeditada em 2005, quando completou 30 anos, o livro rapidamente desapareceu das estantes para não ser mais visto.
Tal livro surgiu de um conto escrito por ele ainda nos anos 1960, mesma época dos primeiros poemas. Poesia em prosa, eis a coerência do romance. "O Waly Salomão que dizia que Leminski era uma 'convergência de contradições', por suas origens negras e polacas, por ser um grande atleta (faixa preta de judô) e um grande boêmio; um bandido que sabia latim", diz Toninho Vaz, referindo-se ao título da biografia do poeta.
Morto em 1989, aos 44 anos, vítima de cirrose hepática, Leminski influenciou não só os seus contemporâneos, mas também gerações posterior. Além disso, suas letras de música foram gravadas por artistas como Caetano Veloso, Itamar Assumpção, Morais Moreira, Ney Matogrosso e Arnaldo Antunes.
Depois de 20 anos de sua morte, a figura de "Polaco" ainda é bastante presente. Porém, sua obra tem sobrevivido de maneira inconstante. A crítica considera 20 anos o tempo ideal para o assentamento de valores de uma obra literária. Um fato que beneficia o julgamento do trabalho do poeta do Pilarzinho, agora já bastante aceito pelos críticos mais céticos. A novidade nesta paisagem é o desaparecimento do folclore das drogas e das biritas, da boemia desregrada ou, em muitos casos, do suicídio consentido, ainda que involuntário. As novas gerações "seletivas" aceitam Paulo Leminski, claramente, como um intelectual, um pensador.
Nos anos 1970, porém, em plena ditadura militar, os jovens estudantes (que poderiam ver nas obras de Leminski a leitura obrigatória colegial) não possuíam liberdade para conhecer a fundo um autor que criticava o regime; que era a imagem de cidadão não quisto pelo governo. Pode-se perceber, portanto, que a maioria das pessoas que tiveram acesso ao conhecimento na juventude e que têm idade acima de 35 anos, não conhecem Paulo Leminski. Com nossos avós de 70 és la misma cosa.
Resta a "classe trabalhadora recente" (20-35) de nosso país fazer esse papel, além dos atuais estudantes e aspirantes a cultura marginal.
Caso contrário, sua complexa leitura será designada às crianças que hoje nascem, que crescerão e, na melhor das hipóteses, se interessarão por literatura. Estimo que estas vejam nesse hombre seu ídolo; quem "saboreava no cigarro a libertação de todos os seus pensamentos" e, sobretudo, a cada escrita plantava uma semente de esperança na mente dos jovens leitores e libertários: as utopias fazem o mundo resistir; revoluções são necessárias.
Texto embasado em um artigo publicado pela revista da Livraria Cultura, em 2009.
Clarice S.

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