
Nietzsche foi um pensador alemão que viveu no século XIX e criticava, além do Clero, a sociedade consumista que surgiria com o desencadeamento das revoluções industriais. Muito estudado hoje, ele antecipou mais de cem anos o que aconteceria. Em sua frase acima, o animal é o animal, o super-homem é o homem no mesmo patamar que Deus (o ideal) e o abismo são as crises.
O homem, apesar de possuir “polegar opositor e o tele-encéfalo altamente desenvolvido”, como tratado no filme curta-metragem desenvolvido por Jorge Furtado em 1989, “A ilha das flores”; age instintivamente algumas vezes e outras, racionalmente. Sua alta racionalidade proporciona desigualdades. Instintivamente falando, todos os homens são iguais perante a natureza. Sendo da mesma espécie, orientais, europeus, negros, latino-americanos, enfim; o homem não escolheria “raça” para cruzamento. Assim como um cão boxer pode querer cruzar com um puddle. Racionalmente falando, o homem branco escolhe uma parceira branca para cruzamento, dando continuação à sua raça. Instintivos ou não, alguns homens dinamizaram esse esquema e hoje, não temos nenhuma “raça” completamente pura (como sugeriria Hitler, líder nazista que exterminou 6 milhões de judeus na 2ª Guerra Mundial).
Preconceitos surgem dessa dinâmica, caro Hitler. Nenhum acontecimento anterior, na paz ou na guerra, tinha refletido tanto o encolhimento do mundo.
No início do documentário, o título “A ilha das flores” aparece ao redor da figura do planeta Terra. Com essa simbologia, podemos compreender como os problemas que o filme aborda abrangem não somente Porto Alegre, aonde foi gravado, mas sim o mundo todo.
Por meio de uma analogia, esses problemas são retratados: o Sr. Suzuki, japonês e plantador de tomates, atuando na região de Porto Alegre-RS, despacha seu produto para os supermercados desta região. Dona Anete, brasileira e vendedora de perfumes; compra tomates e carne de porco no mercado com o lucro adquirido com a venda dos perfumes. Esses ingredientes são principais na refeição que Dona Anete prepara para sua família. Entre os tomates comprados, havia um julgado impróprio para o consumo humano. Esse produto foi jogado no lixo. O lixo recolhido, como acontece todos os dias em várias cidades do mundo, foi enviado para depósitos. Um destes é chamado “A ilha das flores”, localizado em Porto Alegre; onde parte do lixo orgânico é separado e utilizado como alimento para porcos de um dos criadores estabelecidos na região. O problema é que, depois da coleta seletiva, outros seres humanos passam a disputar as sobras do lixão da Ilha das flores.
Desde que o homem, na antiguidade, deixou de ser nômade e descobriu a agricultura, tornando-se sedentário; há uma noção de território. Florestas cederam espaço para a agricultura e à criação de rebanhos; e hoje, para a exploração e o transporte de petróleo, que contamina terras, rios e mares. Tudo o que é produzido em algum momento terá de ser descartado. O volume de lixo e entulho produzido pela sociedade moderna vem crescendo de forma impetuosa. Não há mais espaço para deposita-lo e o seu acúmulo contamina os solos, rios, mares e lençóis freáticos.
O lixo é uma invenção do consumismo. O consumismo existe há tempos, mas se acentuou depois das revoluções industriais (especialmente na 3ª, a que estamos vivendo), isso porque elas agilizaram o processo de fabricação, o que não era possível durante o período artesanal. Consumismo é o mal desta sociedade “capitalista podre” como o tomate jogado no lixo, mas que se diz moderna, antenada e democrática. O que se vê é justamente o contrário: qualquer cachorrinho de madame tem um tratamento melhor do que as crianças paridas sobre as marquises de favelas e que diariamente vasculham as latas de lixo nas esquinas. Qualquer porco da Ilha das flores tem prioridade na alimentação que as crianças e mulheres de lá. “O que coloca os seres humanos depois dos porcos na habilidade de escolha de alimentos, é o fato de não terem dinheiro, nem dono”, como é esclarecido no fim do documentário.
Na “realidade humana”, nada é feito sem dinheiro. Bem como a luta para a abolição da escravatura dos EUA, por exemplo. Foi uma luta igualitária conduzida por pessoas de bom coração. Mais que isso, meu caro. Foi realizada por nações cada vez mais ricas que já não dependiam da escravidão para uma parcela significativa de sua riqueza. Interligamos isso à... dinheiro. O mundo moderno é movido por esse; quem não o possui, está classificado na classe social pobre ou em uma camada social chamada “abaixo da miséria” (como vive 1/3 da população da Índia). Estão esquecidos. Castro Alves deixa subentendido em seu poema “Navio Negreiro” que é preferível morrer à ser submetido a essa situação.
Tudo o que a humanidade, especialmente tratando da classe média/alta, acha impróprio para a sua sobrevivência, vai para as “bordas”. As bordas de uma cidade são as periferias. As bordas dos alimentos são os lixões, as ruas, e quando muito, os aterros sanitários. A culpa é alheia. Da América à Europa Oriental a situação é precária e existente.
Porém, o outro lado da moeda é visível. Ninguém é totalmente anti-consumista; se assim fosse, seria contra sua própria existência. A humanidade precisa comprar alimentos no supermercado, remédios na farmácia, roupas para vestir, enfim. O problema está no consumir esses produtos ou serviços sem consciência; o que acontece muitas vezes por influência da mídia (propagandas em si). Alan Schlup Sant’anna, em seu livro “Equilíbrio em um mundo difícil”, define: “A diferença entre o consumo e o consumismo é que no consumo as pessoas adquirem somente aquilo que lhes é necessário para sobrevivência. Já no consumismo a pessoa gasta tudo aquilo que tem em produtos supérfluos, que muitas vezes não é o melhor para ela. Porém, sente-se encorajada em experimentar tais produtos devido às propagandas na TV e ao apelo dos produtos de marca.”
“A roda da economia”, como revela o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, “só gira quando todos participam dela”. Quanto à independência em termos sociais e econômicos, ninguém a possui completamente (nem um casal de hippies vivendo em uma granja e plantando somente para sua sobrevivência). Uma vez que, quando o ciclo dos produtos funciona (esses que passam em várias “mãos” até chegar ao consumidor), gera-se uma dependência de setor em setor. O Sr. Suzuki, por exemplo, precisa que a dona Anete compre seus tomates, e essa precisa que alguém compre seus perfumes. “Isso é importante porque atinge todos os setores da economia. Da construção civil ao setor têxtil; da indústria naval à indústria de aviação, automobilística, passando pelo setor de serviços. Todos estão crescendo. O povo está consumindo mais. Cada vez que o povo consome, ele gera mais necessidade das empresas produzirem mais, mais emprego, salário. É mais um consumidor na praça”, diz o otimista presidente brasileiro.
Estamos em estado de inércia e em meio a um comodismo. A desigualdade entre classes existe. Sabemos que, como dito acima, às vezes animais domésticos são mais bem tratados que moradores de rua. Isso acontece pela distribuição desigual de renda de um país. Pouco é feito. O ideal, nesse momento, seria o meio-termo. Não trato de um socialismo utópico, mas sim de um estado em que as pessoas pudessem viver com dignidade; com o mínimo necessário para a sobrevivência humana: alimentação, estudo (acesso ao conhecimento), moradia, saneamento básico e um hospital à disposição.
“Ilha das Flores será um falso documentário. Documentário porque todas as informações serão reais. E falso porque vai seguir a trajetória fictícia de um tomate, plantado, colhido, vendido a um supermercado, comprado por uma dona-de-casa, rejeitado na hora de fazer o molho, jogado no lixo, levado para a Ilha das Flores, esquecido pelos porcos e finalmente encontrado por uma criança com fome.”
Jorge Furtado, dias antes do lançamento de seu filme curta-metragem.
Clarice S.