sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010


"A nossa civilização é em grande parte responsável pelas nossas desgraças. Seríamos muito mais felizes se a abandonássemos e retornássemos às condições primitivas."
Sigmund Freud


Ah, na falta do que fazer resolvi postar.
Acho que bebi demais, mas, sei lá.
Estou cansada de regras. Mesmo...
às vezes sinto falta delas e certas vezes (como agora) as repudio com toda força de minh'alma. Mesmo quando penso que estou sendo livre acabo por seguir regras; mesmo que sejam as minhas próprias, são regras!
São tão necessárias assim a ponto de interferirem em nosso livre-arbítrio?
Já essa porcaria de sermos livres é uma regra.
Outrora li que "Liberdade é um estado de espírito" e seja lá quem for que ditou essas palavras à criatura que me escreveu, estava certo.
Bem... mesmo sendo 05:25 estou sem sono. Minha cabeça dói, o que é um provável sinal de que não terei ressaca essa manhã.
Gostaria que mais pessoas lessem esse blog e percebessem como mesmo nós, 'críticos da sociedade', somos alienados e de certo burros por ser tão convictos de nossas opiniões.
Nesse exato momento, em que o álcool afeta meus instintos, percebo que somente seremos libertados quando o amor nos deixar cegos e possamos, enfim, nos tornar selvagens uma vez mais.

Ao contrário do que diz o título do blog... O inferno não são 'os outros' e sim 'nós'.
Ah, que enxaqueca.

Samantha.

Eternamente marginal.



À saber:

A fama de poeta maldito que Paulo Leminski carregou durante toda a vida não era apenas um rótulo. Extremamente culto, ele conjugou como ninguém a erudição, que lhe era característica, à loucura da Contracultura dos anos 1970; unindo o coloquialismo rasteiro das ruas às idéias mais vanguardistas. Espécie de reencarnação de Rimbaud, o "Polaco" foi poeta, jornalista, publicitário, lutador de judô, compositor e seminarista. Um escritor totalmente afinado com o seu tempo e que, segundo Haroldo de Campos, "foi o poeta mais criativo de sua geração".
Mas, passados 20 anos da morte do poeta, o que se escuta a respeito de sua obra é um silêncio ensurdecedor que o falastrão Leminski certamente contestaria. No ano da efeméride do poeta, seus livros estão fora das estantes, sua obra musical totalmente dispersa e o Perhappiness, festival criado em sua homenagem, que acontecia em Curitiba nos meses de setembro e outubro, foi definitivamente sepultado. O último livro de poesia de Leminski que ganhou as prateleiras foi "O ex-estranho", uma coletânea de poemas compilada por Alice Ruiz, viúva do escritor, que foi reeditada no já longínquo ano de 1996.
José Castello, autor do romance "Fantasma", livro que tem Paulo Leminski e a cidade de Curitiba como personages, sugere que o esquecimento do poeta pelo mercado editorial pode ser indício de que, de alguma forma, a figura mítica do escritor se sobrepôs à sua produção literária. "Nesse início de século 21, os escritores se transformaram em figuras pop. A figura de Leminski se insere nessa série de autores pop de nossa época. Morreu jovem, era ousado e sedutor, teve uma vida aventurosa, foi um homem corajoso e rebelde; enfim, unia todos os atributos para ser transformado em um herói. Ainda que, para alguns, seja um anti-herói, esse aspecto do heroísmo nunca se separa de sua imagem. Seria muito bom se tudo isso se refletisse não só na venda de livros, mas, sobretudo, na qualidade das leituras de sua obra. Infelizmente, isso não parece ser verdade", diz o crítico carioca.
Autor extremamente produtivo, apesar da incansável militância etílica e boêmia, Leminski escreveu prosa, poesia, ensaio, crítica literária e foi tradutor de autores como James Joyce, John Fante, Valt Whitman e Samuel Beckett. Esses livros estão espalhados por uma dezena de editoras, algumas que não existem mais. Contraditório na essência, o grán Paulo estreou na literatura com um livro de prosa, ou um "romance-ideia", como gostava de se referir ao seu "Catatau".
Lançado em 1975, o livro é uma viagem linguística que apresenta o filósofo René Descartes (pai da filosofia moderna) nas areias do nordeste brasileiro à espera de um certo Krzystof Artschewski, comandante polonês e chefe da expedição holandesa no Brasil. Em sua prosa-poética, escrita em um único parágrafo e em letras minúsculas, o romance seria homenagem à prosa de Joyce, de Guimarães Rosa e de Haroldo de Campos.
Considerada sua principal obra por muitos críticos, "Catatau" é mais um dos livros da bibliografia deste grande poeta marginal que está fora de catálogo. Reeditada em 2005, quando completou 30 anos, o livro rapidamente desapareceu das estantes para não ser mais visto.
Tal livro surgiu de um conto escrito por ele ainda nos anos 1960, mesma época dos primeiros poemas. Poesia em prosa, eis a coerência do romance. "O Waly Salomão que dizia que Leminski era uma 'convergência de contradições', por suas origens negras e polacas, por ser um grande atleta (faixa preta de judô) e um grande boêmio; um bandido que sabia latim", diz Toninho Vaz, referindo-se ao título da biografia do poeta.
Morto em 1989, aos 44 anos, vítima de cirrose hepática, Leminski influenciou não só os seus contemporâneos, mas também gerações posterior. Além disso, suas letras de música foram gravadas por artistas como Caetano Veloso, Itamar Assumpção, Morais Moreira, Ney Matogrosso e Arnaldo Antunes.
Depois de 20 anos de sua morte, a figura de "Polaco" ainda é bastante presente. Porém, sua obra tem sobrevivido de maneira inconstante. A crítica considera 20 anos o tempo ideal para o assentamento de valores de uma obra literária. Um fato que beneficia o julgamento do trabalho do poeta do Pilarzinho, agora já bastante aceito pelos críticos mais céticos. A novidade nesta paisagem é o desaparecimento do folclore das drogas e das biritas, da boemia desregrada ou, em muitos casos, do suicídio consentido, ainda que involuntário. As novas gerações "seletivas" aceitam Paulo Leminski, claramente, como um intelectual, um pensador.

Nos anos 1970, porém, em plena ditadura militar, os jovens estudantes (que poderiam ver nas obras de Leminski a leitura obrigatória colegial) não possuíam liberdade para conhecer a fundo um autor que criticava o regime; que era a imagem de cidadão não quisto pelo governo. Pode-se perceber, portanto, que a maioria das pessoas que tiveram acesso ao conhecimento na juventude e que têm idade acima de 35 anos, não conhecem Paulo Leminski. Com nossos avós de 70 és la misma cosa.
Resta a "classe trabalhadora recente" (20-35) de nosso país fazer esse papel, além dos atuais estudantes e aspirantes a cultura marginal.
Caso contrário, sua complexa leitura será designada às crianças que hoje nascem, que crescerão e, na melhor das hipóteses, se interessarão por literatura. Estimo que estas vejam nesse hombre seu ídolo; quem "saboreava no cigarro a libertação de todos os seus pensamentos" e, sobretudo, a cada escrita plantava uma semente de esperança na mente dos jovens leitores e libertários: as utopias fazem o mundo resistir; revoluções são necessárias.

Texto embasado em um artigo publicado pela revista da Livraria Cultura, em 2009.


Clarice S.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

“O homem é uma corda esticada entre o animal e o super-homem – uma corda sobre um abismo”. Friendich W. Nietzsche, em “Assim falou Zaratustra”.



Nietzsche foi um pensador alemão que viveu no século XIX e criticava, além do Clero, a sociedade consumista que surgiria com o desencadeamento das revoluções industriais. Muito estudado hoje, ele antecipou mais de cem anos o que aconteceria. Em sua frase acima, o animal é o animal, o super-homem é o homem no mesmo patamar que Deus (o ideal) e o abismo são as crises.
O homem, apesar de possuir “polegar opositor e o tele-encéfalo altamente desenvolvido”, como tratado no filme curta-metragem desenvolvido por Jorge Furtado em 1989, “A ilha das flores”; age instintivamente algumas vezes e outras, racionalmente. Sua alta racionalidade proporciona desigualdades. Instintivamente falando, todos os homens são iguais perante a natureza. Sendo da mesma espécie, orientais, europeus, negros, latino-americanos, enfim; o homem não escolheria “raça” para cruzamento. Assim como um cão boxer pode querer cruzar com um puddle. Racionalmente falando, o homem branco escolhe uma parceira branca para cruzamento, dando continuação à sua raça. Instintivos ou não, alguns homens dinamizaram esse esquema e hoje, não temos nenhuma “raça” completamente pura (como sugeriria Hitler, líder nazista que exterminou 6 milhões de judeus na 2ª Guerra Mundial).
Preconceitos surgem dessa dinâmica, caro Hitler. Nenhum acontecimento anterior, na paz ou na guerra, tinha refletido tanto o encolhimento do mundo.
No início do documentário, o título “A ilha das flores” aparece ao redor da figura do planeta Terra. Com essa simbologia, podemos compreender como os problemas que o filme aborda abrangem não somente Porto Alegre, aonde foi gravado, mas sim o mundo todo.
Por meio de uma analogia, esses problemas são retratados: o Sr. Suzuki, japonês e plantador de tomates, atuando na região de Porto Alegre-RS, despacha seu produto para os supermercados desta região. Dona Anete, brasileira e vendedora de perfumes; compra tomates e carne de porco no mercado com o lucro adquirido com a venda dos perfumes. Esses ingredientes são principais na refeição que Dona Anete prepara para sua família. Entre os tomates comprados, havia um julgado impróprio para o consumo humano. Esse produto foi jogado no lixo. O lixo recolhido, como acontece todos os dias em várias cidades do mundo, foi enviado para depósitos. Um destes é chamado “A ilha das flores”, localizado em Porto Alegre; onde parte do lixo orgânico é separado e utilizado como alimento para porcos de um dos criadores estabelecidos na região. O problema é que, depois da coleta seletiva, outros seres humanos passam a disputar as sobras do lixão da Ilha das flores.
Desde que o homem, na antiguidade, deixou de ser nômade e descobriu a agricultura, tornando-se sedentário; há uma noção de território. Florestas cederam espaço para a agricultura e à criação de rebanhos; e hoje, para a exploração e o transporte de petróleo, que contamina terras, rios e mares. Tudo o que é produzido em algum momento terá de ser descartado. O volume de lixo e entulho produzido pela sociedade moderna vem crescendo de forma impetuosa. Não há mais espaço para deposita-lo e o seu acúmulo contamina os solos, rios, mares e lençóis freáticos.
O lixo é uma invenção do consumismo. O consumismo existe há tempos, mas se acentuou depois das revoluções industriais (especialmente na 3ª, a que estamos vivendo), isso porque elas agilizaram o processo de fabricação, o que não era possível durante o período artesanal. Consumismo é o mal desta sociedade “capitalista podre” como o tomate jogado no lixo, mas que se diz moderna, antenada e democrática. O que se vê é justamente o contrário: qualquer cachorrinho de madame tem um tratamento melhor do que as crianças paridas sobre as marquises de favelas e que diariamente vasculham as latas de lixo nas esquinas. Qualquer porco da Ilha das flores tem prioridade na alimentação que as crianças e mulheres de lá. “O que coloca os seres humanos depois dos porcos na habilidade de escolha de alimentos, é o fato de não terem dinheiro, nem dono”, como é esclarecido no fim do documentário.
Na “realidade humana”, nada é feito sem dinheiro. Bem como a luta para a abolição da escravatura dos EUA, por exemplo. Foi uma luta igualitária conduzida por pessoas de bom coração. Mais que isso, meu caro. Foi realizada por nações cada vez mais ricas que já não dependiam da escravidão para uma parcela significativa de sua riqueza. Interligamos isso à... dinheiro. O mundo moderno é movido por esse; quem não o possui, está classificado na classe social pobre ou em uma camada social chamada “abaixo da miséria” (como vive 1/3 da população da Índia). Estão esquecidos. Castro Alves deixa subentendido em seu poema “Navio Negreiro” que é preferível morrer à ser submetido a essa situação.
Tudo o que a humanidade, especialmente tratando da classe média/alta, acha impróprio para a sua sobrevivência, vai para as “bordas”. As bordas de uma cidade são as periferias. As bordas dos alimentos são os lixões, as ruas, e quando muito, os aterros sanitários. A culpa é alheia. Da América à Europa Oriental a situação é precária e existente.
Porém, o outro lado da moeda é visível. Ninguém é totalmente anti-consumista; se assim fosse, seria contra sua própria existência. A humanidade precisa comprar alimentos no supermercado, remédios na farmácia, roupas para vestir, enfim. O problema está no consumir esses produtos ou serviços sem consciência; o que acontece muitas vezes por influência da mídia (propagandas em si). Alan Schlup Sant’anna, em seu livro “Equilíbrio em um mundo difícil”, define: “A diferença entre o consumo e o consumismo é que no consumo as pessoas adquirem somente aquilo que lhes é necessário para sobrevivência. Já no consumismo a pessoa gasta tudo aquilo que tem em produtos supérfluos, que muitas vezes não é o melhor para ela. Porém, sente-se encorajada em experimentar tais produtos devido às propagandas na TV e ao apelo dos produtos de marca.”
“A roda da economia”, como revela o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, “só gira quando todos participam dela”. Quanto à independência em termos sociais e econômicos, ninguém a possui completamente (nem um casal de hippies vivendo em uma granja e plantando somente para sua sobrevivência). Uma vez que, quando o ciclo dos produtos funciona (esses que passam em várias “mãos” até chegar ao consumidor), gera-se uma dependência de setor em setor. O Sr. Suzuki, por exemplo, precisa que a dona Anete compre seus tomates, e essa precisa que alguém compre seus perfumes. “Isso é importante porque atinge todos os setores da economia. Da construção civil ao setor têxtil; da indústria naval à indústria de aviação, automobilística, passando pelo setor de serviços. Todos estão crescendo. O povo está consumindo mais. Cada vez que o povo consome, ele gera mais necessidade das empresas produzirem mais, mais emprego, salário. É mais um consumidor na praça”, diz o otimista presidente brasileiro.
Estamos em estado de inércia e em meio a um comodismo. A desigualdade entre classes existe. Sabemos que, como dito acima, às vezes animais domésticos são mais bem tratados que moradores de rua. Isso acontece pela distribuição desigual de renda de um país. Pouco é feito. O ideal, nesse momento, seria o meio-termo. Não trato de um socialismo utópico, mas sim de um estado em que as pessoas pudessem viver com dignidade; com o mínimo necessário para a sobrevivência humana: alimentação, estudo (acesso ao conhecimento), moradia, saneamento básico e um hospital à disposição.

“Ilha das Flores será um falso documentário. Documentário porque todas as informações serão reais. E falso porque vai seguir a trajetória fictícia de um tomate, plantado, colhido, vendido a um supermercado, comprado por uma dona-de-casa, rejeitado na hora de fazer o molho, jogado no lixo, levado para a Ilha das Flores, esquecido pelos porcos e finalmente encontrado por uma criança com fome.”
Jorge Furtado, dias antes do lançamento de seu filme curta-metragem.


Clarice S.