quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O valor de uma ruga.



Milton compôs:
"Foi nos bailes da vida ou num bar em troca de pão, que muita gente boa pôs o pé na profissão. De tocar um instrumento e de cantar, não importando se quem pagou quis ouvir, foi assim: cantar era buscar o caminho que vai dar no sol. Tenho comigo as lembranças do que eu era. Para cantar nada era longe, tudo tão bom. Pé a estrada de terra na boléia de um caminhão, era assim: com a roupa encharcada e a alma repleta de chão. Todo artista tem de ir aonde o povo está. Se foi assim, assim será. Cantando me desfaço e não me canso de viver, nem de cantar."

Há dias tenho pensado, em plena sintonia com a natureza (contente por isso), nos variados significados que a elasticidade da pele pode criar. Las odiadas rugas se originam da contração muscular repetida ao longo dos anos. Essas passam a aparecer na fase adulta pelo corpo humano. Aos 25, 40 ou 50: não somos nós quem podemos decidir. Cabe só à genética, à intensidade de atividades que o vivente tem/teve (e os problemas - como doenças, ou soluções que isso acarreta) e um pouco de sorte... A busca pela jovialidade, nos dias atuais, tem as dissipado. Cirurgias de lá, cremes de cá; ciência e estética juntas na busca pelo propósito de eliminá-las.
Porém, minimizando as rugas, há perda da nossa identidade. Hipocrisia conquistando seu espaço. Mulheres de 50 competindo com as de 20: nos campos amoroso, estudantil e de trabalho.
Rugas significam vida árdua (de trabalho, na pele cor-de-cuia da mendiga da rua ao lado; de leveza, na pele branca da dondoca empresária que te despreza), experiência. Rugas "pés-de-galinha" deixam subentendido que os olhos daquela senhora presenciaram inúmeras cenas; que as mãos marcadas do senhor que toma cerveja no bar sofreram abusos no trabalho: ergueram muitos tijolos para pagar sua bebida.
Femininas ou masculinas: essas marcas corporais fazem parte da nossa história; não devem ser dissipadas ou escondidas com maquiagens. São, ao contrário do que a mídia nos repassa, motivo de orgulho.

Alguns cidadãos com idadade superior a 50 anos provavelmente nunca serão considerados mártires - por não terem pregado revoluções, mas sua experiência e a vivência que isso acarreta são notáveis. Não os ignorem, vos peço.

Pendo para o lado geriátrico, não minto, mas sou crente em uma sociedade baseada no respeito pelos idosos e aposentados. Afinal de contas, a nossa hora chegará... em breve.

E à quem está pensando em encarar uma jornada de cirurgias pelo corpo e rosto, a fim de parecer mais jovem, que pense na possibilidade de enviar esse dinheirão todo que os médicos e clínicas pedem por seus serviços - sem necessidade, para algum asilo. Certamente o aproveitamente do uso financeiro será maior: com a alimentação das senhoras e senhores que precisam e sua estadia final em Gaia.

Admirem olheiras: deixam subentedido trabalho, cansaço. Estudantes que passaram a noite em cima de livros preparando-se para uma prova querem reconhecimento; trabalhadores de três turnos seguidos, com 30 min. para janta e almoço, também.
Esses seres são os dignos de nossa admiração e respeito.

No mais, estimo que esse texto balance vossas estruturas.

Passem bem,
Clarice S.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Tell all the people that you see... Set them free!

Criatividade zero hoje. Mas apesar dos incômodos do último mês do ano me sinto feliz por ter descoberto uma nova cultura (Hippie). Na verdade ela existe há praticamente cinco décadas e possuiu milhares de adeptos em seu auge; meu interesse aumentou nesse final de ano e resolvi comentar.
Sabe-se lá porque, talvez já esteja de saco cheio dessa merda chamada Raça Humana.
Antes de 'enxer de lixo' meus semelhantes somente desejo que explodam junto com os fogos de artifício de ano novo. Agora penso que o mundo acabar em 2012 e recomeçar não é uma má ideia.
Oh céus. Bom final de ano, criaturas. Incluam em seus planos para 2010 independência. Que assim seja!

Samantha.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

"Reciprocidade ou morte!"



Saudações.

Hoje vos trago um texto digno de nossa leitura; de um grande teólogo, filósofo, escritor e defensor da prática de sustentabilidade. Leonardo Boff desistiu da carreira eclesiática há alguns anos e passou a dedicar-se a atividades realmente importantes, relacionadas ao meio-ambiente que não conservamos. É sobre isso que o texto abaixo aborda. O cara é tão bom, que prefere andar de ônibus a avião em suas longas viagens pelo Brasil afora; por tratar-se de um transporte coletivo, em que menor quantidade de CO2 é liberada à atmosfera.


"Desde que os seres humanos decidiram viver juntos, estabeleceram um contrato social não escrito pelo qual formularam normas, proibições e propósitos comuns que permitissem uma convivência minimamente pacífica.
Depois surgiram os pensadores que lhe deram um estatuto formal como Locke, Kant e Rousseau. Todos esses contratos históricos têm um defeito: supõem indivíduos nus e acósmicos, sem qualquer ligação com a natureza e a Terra. Os contratos sociais ignoram e silenciam totalmente o contrato natural. Mais ainda, a partir dos pais fundadores da modernidade, Descartes e Bancon, implantou-se a ilusão de que o ser humano está acima e fora da natureza com o propósito de domínio e posse da Terra. Este projeto continua a se realizar mediante a guerra de conquista seguida pela apropriação de todos os recursos e serviços naturais. Atrás sempre fica um rastro de devastação da natureza e de desumanização brutal. Antes se fazia guerra e apropriação de regiões ou povos. Hoje conquistaram-se todos os espaços e se conduz uma guerra total e sem tréguas contra a Terra, seus bens e serviços, explorando-os até a sua exaustão. Ela não tem mais descanso, refúgio ou espaço de recuo.
A agressão é global e a reação da Terra-Gaia [teoria de James Lovelock]está sendo também global. A resposta é o complexo de crises, reunidas no devastador aquecimento global. É a vingança de Gaia.
Não temos outra saída senão reintroduzir consciente e rapidamente o que havíamos deixado para trás: o contrato natural articulado com o contrato social. Trata-se de superar nosso arrogante antropocentrismo e colocar todas as coisas em seu lugar e nós junto delas como parte de um todo.
Que é contrato natural? É o reconhecimento do ser humano de que ele está inserido na natureza, de quem tudo recebe, que deve comportar-se como filho e filha da Mãe Terra, restituindo-lhe cuidado e proteção para que ela continue a fazer o que desde sempre faz: dar-nos vida e os meios da vida. O contrato natural, como todos os contratos, supõe a reciprocidade. A natureza nos dá tudo o que precisamos e nós, em contrapartida, a respeitamos e reconhecemos seu direito de existir e lhe preservamos a integridade e a vitalidade.
Ao contrato exclusivamente social, devemos agregar agora o contrato natural de reciprocidade e simbiose. Renunciamos a dominar e a possuir e nos irmanamos com todas as coisas. Não as usamos simplismente, mas ao usá-las quando precisamos, as contemplamos, admiramos sua beleza e organicidade e cuidamos delas. A natureza é o nosso hospedeiro generoso e nós seus hospedes agradecidos. Ao inés de uma trégua nesta guerra sem fim, estabelecemos uma paz perene com a natureza e a Terra.
A crise econômica de 1929 sequer punha em questão a natureza e a Terra. O pressuposto ilysório de que elas estão sempre aí, disponíveis e com recursos infinitos. Hoje a situação mudou. Já não podemos dar por descontada a terra com seus bens e serviços. Estes mostraram-se finitos e a capacidade de sua reposição já foi ultrapassada em 40%.
Quando esse fator é trazido ao debate na busca de soluções para a crise atual? Somos dominados por economistas, em sua grande maioria verdadeiros idiotas especializados - Fachidioten - que não veem senão números, mercados e moedas esquecendo que comem, bebem respiram e pisam em solos contaminados. Quer dizer, que só podem fazer o que fazem porque estão assentados na natureza que lhes possibilita fazer tudo o que fazem, especialmente, dar razões ao egoísmo e às barbaridades que a atual economia faz, prejudicando milhões de pessoas e que vai minando a base que a sustenta.
Ou restabelecemos a reciprocidade entre natureza e ser humano e rearticulamos o contrato social com o natural ou então aceitamos o rosico de sermos expulsos e eliminados por Gaia. Confio no aprendizado a partir do sofrimento e do uso do pouco bom senso que ainda nos resta."
Publicado em 14/12/09 no jornal "Diário do Iguaçu".


Depois dessa brilhante síntese de idéias (sou relutante quanto à nova regra de acentuação), nada mais tenho a dizer.

Passem bem.

Ass,
Clarice S.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Qual é o nosso limite?
Segundo alguns psicólogos e psiquiatras, vivemos sobre uma linha tênue e oscilamos entre os dois lados - "loucura e sanidade". Sem um, o outro não aguenta por muito tempo. Eu mesma sou exemplo, pois já tive uma experiência como essa. Remédios aqui e ali e tudo voltou ao normal. Mas me pergunto... Será que essas oscilações ainda existem? Será que a mente, a sanidade, a loucura, e os "LIMITES" ainda existem?
Em certos momentos penso que não, mas revejo...
"Tudo é impossível até que alguém vá lá e prove o contrário".

- Essa baboseira toda: sobre os degraus que a raça humana consegue descer a cada dia.

Samantha

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009




"O modernismo em Portugal (e seu mais importante representante, Fernando Pessoa)surgiu em meio à grande instabilidade política da recém-instaurada República, declarada em 1910, com o assassinato do rei Carlos de Bragança. A situação portuguesa se agradou ainda mais com a Primeira Guerra Mundial, a qual trouxe a ameaça de o país perder suas colônicas ultramarinas, cobiçadas pelas grandes potências. Por conta disso, um forte sentimento nacionalista se desenvolveu no país. É nessa época que se desenvolveu Fernando Pessoa.
O Modernismo surgiu como resposta à transição que se começou a operar desde o início da Revolução Industrial. Os novos conhecimentos técnicos e científicos mudaram diametralmente a visão de mundo estabelecida no Ocidente desde a Grécia clássica. À medida que os conceitos teológicos, políticos e sociais eram debatidos, uma nova maneira de entender o homem e o universo tomava o lugar das antigas concepções. As novas tecnologias também forneciam outras perspectivas para entender a realidade de outra maneira. Correntes de pensamento - notadamente a teoria psicanalítica de Sigmundo Freud (1855-1936) e o niilismo de Friendich Nietzsche (1844-1900) - também ajudaram a desbancar o antigo e a clamar pelo moderno.
(...)
Álvaro de Campos [heterônimo de Fernando Pessoa] experimenta a civilização e admira sua energia e a força, registrando em seus poemas a ânsia de viver de forma integral e a complexidade de todas as sensações.
Entre os heterônimos, Campos foi o único a manifestar fases diferentes ao longo de sua obra. Ele tem três fases distintas. A primeira é marcada pelo decadentismo, um movimento literário que se desenvolveu no final do século XIX, em oposição ao Realismo; e que busca explorar a dimensão misteriosa da existência (...) Ele adere ao Futurismo. Finalmente, depois de uma série de desilusões existenciais, o heterônimo assume uma veia intimista. Esse período é chamado de Fase Abúlica. Espelha a desilusão com o mundo em que vive. A produção desse período é imbuída de tristeza e cansaço.
(...)
Fernando Pessoa diz sobre si mesmo ser um "invertido frustrado". Confessa sentir como uma mulher e pensar como um homem. Mais ainda, refere-se a "um corpo de mulher que foi meu outrora e cujo cio sobrevive!". Apesar dos indícios sobre seus homossexualismo, Pessoa teve uma namorada, Ophélia Queiroz, com quem se relacionou por duas vezes: em 1920 e, depois, entre 1929 e 1931. O namoro, porém, não foi em frente. Pessoa desmanchou o compromisso por conta de um desentendimento com Álvaro de Campos. Sua criação temia que o romance desviasse Pessoa da poesia. Ele abandona, assim, essa rara possibilidade de contato com o outro".


Caros leitores, interessou-me bastante esse último parágrafo (os anteriores foram a título de conhecimento). O grán Pessoa seguia os ideais aristotélicos de prática, certamente. Percebe-se que os artistas, em geral, costumam se isolar do mundo para produzir: produzir escritos (de livros a peças teatrais), obras de arte, projetos, composições, enfim. Esse isolamento é necessário. Reproduzir o mundo também. Porém, geralmente isso é feito decorrente das vivências que tal artista teve. Vivenciá-las durante a produção diminui a qualidade dessa; pois inclui, algumas vezes, noites boêmias, alimentação não-saudável e hábitos que, de alguma forma, atrapalham o meio em que o cidadão está inscrito.
Depois de concluída a obra, ouve-se um "Graças". O problema do isolamento, é a reintegração com a sociedade. Simpatizar novamente nosso círculo social não é tarefa fácil. Além disso, se corre o risco do rompimento da compatibilidade. A sensação que se tem, é a de que você evoluiu e outrem ficou no comodismo, na inércia. Logo, terás que ir em busca de novos companheiros de jornada.

Caso estejam vivenciando o momento descrito, bona fortuna. Aliás, à vocês e à mim.

Ass,
Clarice S.